No mundo mágico de Oz, motos são mais importantes que bicicletas
Por Rogério Viduedo.
Osasco Cidade Trabalho. O município adotou esse lema devido à comunidade de metalúrgicos e bancários que floresceu por ali na segunda metade do século 20. Para quem mora nos bairros do Rio Pequeno e Jaguaré, na vizinha São Paulo, é mais fácil acessar serviços em Osasco do que em Pinheiros e Lapa.
E La Nave Và. Sétimo município mais rico do país, é sede do IFood e de galpões logísticos do Mercado Livre e Amazon, sendo um dos principais polos de distribuição final de mercadorias compradas pela internet da Região Metropolitana. Lá, o serviço de mototáxi é permitido e talvez por isso a proporção de óbitos de motociclistas em relação ao total aumentou bastante. No acumulado de 2025, até agosto, foram registrados 51 casos pelo Infosiga, sendo 27 de ocupantes de motos, o que representa 53%. Tal número é 23% maior que o registrado no mesmo período de 2024.
Dias atrás, o atual prefeito Gerson Pessoa (Podemos) anunciou, serelepe, na internet os primeiros metros da faixa segregada para motos “para garantir a segurança e fluidez”, disse. Logicamente, não quer ficar de fora do populismo motociclístico que assola o país. A via escolhida para o experimento é a avenida Getúlio Vargas, uma das cinco que mais registram sinistros de trânsito da cidade. Ela integra um corredor que liga o norte ao sul e que passa por baixo da rodovia com nome de ditador e por cima do Rio Tietê.
Ainda assim, a cidade tem um coletivo de ativistas, o Ciclosasco. Faz mais de 10 anos que brigam para que seja colocado em ação o que foi definido pelo Plano Municipal de Mobilidade sancionado como lei em 2016 pelo prefeito petista Jorge Lapas. Na época, o coletivo fez uma contagem que identificou 1,6 mil ciclistas se deslocando diariamente pela cidade. O plano, no entanto, caiu no esquecimento.
Dois anos atrás, participei de uma reunião do coletivo com o então secretário de Trânsito e atual vice-prefeito, Laudemir Lino Alencar, e a então vereadora Juliana Curvelo (Psol). Ela queria destinar uma emenda de R$ 300 mil a que tinha direito para alguma infraestrutura cicloviária. Ficou na saudade, pois o único projeto que a cidade tinha à época era uma ciclovia que seria feita caso fosse permitido cobrir o córrego Bussocaba. Isso mesmo: uma obra insana que foi barrada pela Cetesb, a empresa ambiental do Estado, e que custaria algo em torno de R$ 25 milhões.
Neste ano, pode ser que apareçam alguns projetos cicloviários, já que acaba de ser aprovado o o plano plurianual da cidade. Um integrante do Ciclosasco me enviou um documento no qual aparecem alguns rascunhos de ciclovias e ciclofaixas. Osasco tem intenção de ficar bem na foto dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e, talvez, até o fim do atual mandato, surja alguma coisa para aparentar que se importam com a mobilidade sustentável. Eu duvido.
Rogério Viduedo é jornalista de São Paulo e integrante do Programa de Jornalismo de Segurança Viária da Organização Mundial da Saúde. Cobre as áreas de segurança viária a mobilidade sustentável desde 2016. Em 2018, criou o site Jornal Bicicleta para cobrar autoridades por soluções eficientes para deslocamento da população. Recebeu o Prêmio Abraciclo em 2021 com a reportagem “Cultura da bicicleta se aprende na escola”.
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- Veículo: Brasil de Fato
- Data de publicação original: 07/10/2025
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