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No mundo mágico de Oz, motos são mais importantes que bicicletas

Por Rogério Viduedo.

Osasco Cidade Trabalho. O município adotou esse lema devido à comunidade de metalúrgicos e bancários que floresceu por ali na segunda metade do século 20. Para quem mora nos bairros do Rio Pequeno e Jaguaré, na vizinha São Paulo, é mais fácil acessar serviços em Osasco do que em Pinheiros e Lapa.

Por lá ando desde os anos 1970, quando ia com minha mãe e irmãos ao Cine Estoril assistir aos Trapalhões. Nos anos 1980, estudei o ensino médio num curso técnico noturno. Nos anos 1990, comecei a carreira de jornalista no jornal Primeira Hora. Nos 2000, fui bancário na Cidade de Deus e nos 2010, minha filha estudou o fundamental no colégio do Papau.

E La Nave Và. Sétimo município mais rico do país, é sede do IFood e de galpões logísticos do Mercado Livre e Amazon, sendo um dos principais polos de distribuição final de mercadorias compradas pela internet da Região Metropolitana. Lá, o serviço de mototáxi é permitido e talvez por isso a proporção de óbitos de motociclistas em relação ao total aumentou bastante. No acumulado de 2025, até agosto, foram registrados 51 casos pelo Infosiga, sendo 27 de ocupantes de motos, o que representa 53%. Tal número é 23% maior que o registrado no mesmo período de 2024.

Dias atrás, o atual prefeito Gerson Pessoa (Podemos) anunciou, serelepe, na internet os primeiros metros da faixa segregada para motos “para garantir a segurança e fluidez”, disse. Logicamente, não quer ficar de fora do populismo motociclístico que assola o país. A via escolhida para o experimento é a avenida Getúlio Vargas, uma das cinco que mais registram sinistros de trânsito da cidade. Ela integra um corredor que liga o norte ao sul e que passa por baixo da rodovia com nome de ditador e por cima do Rio Tietê.

Rápido em agradar motociclistas, Pessoa faz ouvidos moucos para pedidos de infraestrutura cicloviária. De acordo com o CicloMapa da União de Ciclistas do Brasil, a cidade de 700 mil habitantes e área de 65 quilômetros quadrados possui míseros três quilômetros em três trechos que são desconectados e quase inúteis. Aos domingos, é montada uma ciclofaixa de lazer de sete quilômetros que só funciona pela manhã. O argumento para o horário reduzido, segundo o prefeito da época, Rogério Lins (cunhado do atual), é que ninguém faz exercício depois do almoço dominical quando a temperatura está mais quente. É a famosa pesquisa TDC (tirei da cabeça, pra não falar outra coisa).
Pedalar em Osasco é tão perigoso como em qualquer cidade da região. De janeiro a agosto deste ano, duas pessoas em bicicleta morreram por lá. Demanda de ciclistas há. O bicicletário da estação de trem no Centro tem 166 vagas, mas quem não chegar bem cedo corre o risco de não conseguir lugar. Há outra estrutura no terminal de ônibus no bairro de Quitaúna, com 116 vagas, onde guardar a bici é mais fácil, desde que se limite ao horário reduzido de 7 às 17 horas, o que deixa inviável para quem trabalha o dia inteiro ou estuda de noite.

Ainda assim, a cidade tem um coletivo de ativistas, o Ciclosasco. Faz mais de 10 anos que brigam para que seja colocado em ação o que foi definido pelo Plano Municipal de Mobilidade sancionado como lei em 2016 pelo prefeito petista Jorge Lapas. Na época, o coletivo fez uma contagem que identificou 1,6 mil ciclistas se deslocando diariamente pela cidade. O plano, no entanto, caiu no esquecimento.

Dois anos atrás, participei de uma reunião do coletivo com o então secretário de Trânsito e atual vice-prefeito, Laudemir Lino Alencar, e a então vereadora Juliana Curvelo (Psol). Ela queria destinar uma emenda de R$ 300 mil a que tinha direito para alguma infraestrutura cicloviária. Ficou na saudade, pois o único projeto que a cidade tinha à época era uma ciclovia que seria feita caso fosse permitido cobrir o córrego Bussocaba. Isso mesmo: uma obra insana que foi barrada pela Cetesb, a empresa ambiental do Estado, e que custaria algo em torno de R$ 25 milhões.

Neste ano, pode ser que apareçam alguns projetos cicloviários, já que acaba de ser aprovado o o plano plurianual da cidade. Um integrante do Ciclosasco me enviou um documento no qual aparecem alguns rascunhos de ciclovias e ciclofaixas. Osasco tem intenção de ficar bem na foto dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) e, talvez, até o fim do atual mandato, surja alguma coisa para aparentar que se importam com a mobilidade sustentável. Eu duvido.

 

Rogério Viduedo é jornalista de São Paulo e integrante do Programa de Jornalismo de Segurança Viária da Organização Mundial da Saúde. Cobre as áreas de segurança viária a mobilidade sustentável desde 2016. Em 2018, criou o site Jornal Bicicleta para cobrar autoridades por soluções eficientes para deslocamento da população. Recebeu o Prêmio Abraciclo em 2021 com a reportagem “Cultura da bicicleta se aprende na escola”.

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