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Pedalar fortalece a democracia! E isso não se constrói da noite para os dias

Por Murilo Casagrande.

Esse ano começou com tudo. Em um contexto marcado por ataques à democracia e por uma crescente crise de confiança em relação às organizações da sociedade civil, torna-se ainda mais importante reafirmar o valor do diálogo, da escuta e da construção coletiva. É por isso que escolhemos abrir o ano contando a história da parceria entre o Aromeiazero e a cidade de Niterói. Em um ano de eleições no país, ainda que não sejam municipais, consideramos importante destacar essa relação, que mostra como políticas públicas duradouras se constroem ao longo do tempo, com confiança, diálogo e corresponsabilidade entre sociedade civil e poder público.

Nossa história com Niterói começa em 2018, a partir do diálogo iniciado após o Velo-City, uma conferência internacional sobre mobilidade e bicicleta. Em 2019, esse contato se aprofundou com as primeiras trocas sobre a possibilidade de levar para o município o Viver de Bike, nosso projeto de formação em mecânica de bicicletas e geração de renda, apresentado no congresso.

Em 2020, o cenário da pandemia suspendeu muitas atividades e trocas presenciais. Em 2021, ainda diante das limitações impostas pela pandemia, realizamos a Jornada de Multiplicadores do Rodinha Zero, um ciclo de formações online voltado a educadores, organizações da sociedade civil e gestores públicos, com o objetivo de fomentar o uso da bicicleta como ferramenta de educação. A jornada contou com a participação de iniciativas de diferentes cidades do país, e Niterói foi uma das selecionadas, fortalecendo a retomada do diálogo com o município.

Em 2022, o diálogo entre o Aromeiazero e a cidade de Niterói se consolidou por meio de reuniões estratégicas com o prefeito Axel Grael e Renata Falzoni, fortalecendo a articulação com a Secretaria Municipal de Educação e ampliando a participação em espaços de debate sobre mobilidade ativa e políticas públicas de mobilidade nas escolas.

Em 2023, a parceria ganhou materialidade em Niterói. Em agosto, realizamos uma edição do Rodinha Zero na escola Escola Municipal Sítio do Ipê – Niterói/RJ, em colaboração com Studio +1, Urban 95 e Bike Anjo, doando bicicletas e fazendo com que 307 crianças pedalarem com o Aro. Avançamos também na reflexão sobre como replicar a metodologia em mais escolas e, no início do ano, após meses de articulação, assinamos um acordo para a captação da Bikeatona, ampliando nossa capacidade de atuação conjunta no município.

No início do ano, após meses de articulação, assinamos um acordo para a captação da Bikeatona, com o objetivo de ampliar a atuação conjunta. Apesar do esforço, a iniciativa não avançou naquele momento, mas seguimos com novas ideias e planos para uma maratona de inovação com bicicletas em Niterói.

Niterói esteve no centro de várias iniciativas ao longo desses anos, reforçando a cultura da bicicleta na cidade. Em 2025, foi especialmente gratificante ver a cidade sediar o Bicicultura, resultado de um diálogo contínuo sobre a importância de promover festivais que valorizem a mobilidade ativa. Ainda mais especial foi levar o Bike Arte, um sonho antigo que se tornou realidade graças à contratação de equipe local indicada e à realização de diversas atividades viabilizadas pela Lei Rouanet com patrocínio de empresas como Itaú Unibanco e Shimano. Também com o patrocínio do Itaú conseguimos levar a Bikeatona a Niterói, onde um dos projetos selecionados, Social Pedalar, recebeu mentorias, R$12 mil de apoio e está tirando o projeto do papel, fortalecendo o ecossistema local de mobilidade ativa.

Também reconhecemos a importância de contar essa história. Muitas reuniões, pedais, encontros e trocas ficaram de fora desta retrospectiva, mas registrar essas trajetórias faz parte do nosso trabalho de advocacy, pois mostra que políticas públicas não surgem do nada — elas se constroem a partir de relações consistentes entre sociedade civil, ativistas locais e poder público.

Mesmo em momentos em que essas esferas estiveram distantes, o Aro atuou como ponte, promovendo o diálogo e trazendo diferentes perspectivas sobre o papel da bicicleta na cidade. Ao fortalecer essas conexões, contribuímos para o debate público e para a consolidação da democracia, mostrando que a colaboração consistente gera impacto real na vida das pessoas e na forma como elas se relacionam com o espaço urbano.

 

Murilo Casagrande é diretor do Instituto Aromeiazero.