O ciclista Jesus nas rodovias da morte
Por Dado Galvão.
Mais um ser humano ciclista, ainda não identificado, atropelado em uma movimentada rodovia brasileira, quando andava de bicicleta. Segundo informações do IML Instituto Médico Legal, o ciclista não estava portando documentos e possivelmente foi atropelado por um veículo não identificado, quando andava de bicicleta pelo acostamento da rodovia, o DPT Departamento de Polícia Técnica, recolheu o corpo e o que restou da bicicleta, ambos arremessados em direção ao matagal existente nas margens da rodovia, no local não existem câmeras de monitoramento e provavelmente não acontecerá perícia e investigação policial.
Um ciclista nômade, passava pelo local, quando o DPT, removia o corpo e os destroços da bicicleta, o nômade aparentava ter 33 anos de idade, possuía barba e cabelos longos, fortes cicatrizes nas mãos e pés, ao retirar o capacete desbotado pelo sol, era visível também cicatrizes na testa, o ciclista parecia levar tudo que precisava, em dois alforjes reciclados feitos com túneis de plástico, adaptados no bagageiro de uma velha bicicleta barra circular.
Quando o veículo do DPT, popularmente conhecido como “rabecão” ou “Uber do governo”, estava prestes a sair do local, o nômade ciclista, então disse: “talvez aquele adesivo brilhante no quadro da bicicleta, onde está escrito, “guiado por Jesus”, ajude a revelar quem é este ser humano”, e continuou; “vejo quase todos os dias situações como estas, envolvendo ciclistas como eu”. Alguém então respondeu com um conhecido e preconceituoso clichê: “pedalar na BR é pedir para morrer; lugar de bicicleta não é na rodovia!”
Andar de bicicleta é um direito, seja nas ruas ou rodovias, movimentadas ou não, o direito de ir e vir é constitucional. Segundo orientações da PRF Polícia Rodoviária Federal, “motoristas devem redobrar a atenção ao transitar próximos a bicicletas. O Código de Trânsito Brasileiro (CTB), em seu Art. 201, determina que o condutor deve guardar a distância lateral mínima de 1,5 metro ao ultrapassar ciclistas. O descumprimento configura infração.
Plaquinhas reflexivas e refletivas do Movimento @cicloolhar
Ainda segundo a PRF, “a adoção de medidas simples pode evitar tragédias. Para os ciclistas, algumas recomendações são fundamentais: manter-se sempre à direita da via, utilizando o acostamento ou ciclofaixa, quando disponível; usar capacete de proteção; pedalar em fila quando em grupo; e, em período noturno, equipar a bicicleta com dispositivos de iluminação, além de vestir roupas claras e refletivas para ampliar a visibilidade”.
Basta uma rápida pesquisa na internet e fica evidente o aumento crescente de ciclistas atropelados e mortos em rodovias federais que cortam o Brasil, segundo informações do site Bike Registrada, “algumas rodovias federais brasileiras se destacam pelo número elevado de acidentes com ciclistas. Rotas movimentadas, como BR-101, BR-116 e BR-381, registram colisões graves com frequência, principalmente em trechos sem acostamento adequado ou com tráfego pesado. A ausência de infraestrutura segura transforma trajetos curtos em riscos significativos, especialmente quando ciclistas dividem espaço com veículos grandes. Falta de sinalização e fiscalização contribui para ultrapassagens arriscadas e desrespeito à distância mínima exigida por lei”.
Em agosto de 2025, segundo matéria da Agência de Notícias da Câmara, a Comissão de Viação e Transportes da Câmara dos Deputados, aprovou o Projeto de Lei 3084/21, do Senado, que obriga a União a implantar ciclovias nos trechos de rodovias federais ou interestaduais sob sua responsabilidade, que tenham tráfego. O projeto ainda será analisado, em caráter conclusivo, pelas comissões de Desenvolvimento Urbano; de Finanças e Tributação; e de Constituição e Justiça e de Cidadania. Se for aprovada pelos deputados sem alterações, a proposta seguirá para sanção presidencial.
Provavelmente, só teremos análise do projeto na próxima legislatura, no ano de 2026, acontecerá eleições para presidente da república, governadores, senadores, deputados federais e estaduais, sendo assim, na esperança de um congresso renovado e mais produtivo para o Bem Comum, na condição de ciclistas cidadãos/ãs, podemos exigir, cobrar dos/das candidatos/as que irão se apresentar na disputa eleitoral, compromissos verdadeiros, no âmbito municipal, estadual e federal, com pautas, projetos, incentivos e leis concretas, que preservem a vida de quem anda de bicicleta e contribui para sustentabilidade da nossa Casa Comum. Somos (nós) responsáveis por eleger legisladores e governantes.
Se a pedalada cidadã não acontecer agora, vamos continuar ouvindo e cantando “em berço esplêndido”, “Perfeição”, da atemporal, Banda Legião Urbana: “vamos celebrar nosso governo e nosso Estado, que não é nação; vamos comemorar como idiotas, a cada fevereiro e feriado; todos os mortos nas estradas; vamos celebrar nossa justiça; nosso castelo de cartas marcadas; é a festa da torcida campeã; vamos festejar a violência; vamos celebrar o horror de tudo isso com festa, velório e caixão; só a verdade me liberta”.
O veículo do DPT, partiu rumo ao IML, levando mais um ser humano sem vida, machucado, ensanguentado, sem identificação, morreu andando de bicicleta, sentindo o vento no rosto e o barulho do motor dos mais variados automóveis, contraste reflexivo, vivenciado cotidianamente pelos/pelas ciclistas que resistentemente transitam em rodovias e ruas, sinais da mobilidade esperança.
Inesperadamente, partiu pedalando lentamente pelo acostamento da rodovia, o nômade ciclista, quando, de repente, foi ultrapassado por um velho caminhão amarelo, Mercedes-Benz 1113, que “tirou um fino”, passando muito próximo do ciclista, nas duas portas traseiras do baú do caminhão, uma imagem grande plotada nas portas do baú, a foto de um ciclista jovem e sorridente, andando livremente de bike, abaixo no para-choque traseiro do caminhão, estava escrito em letras garrafais: “eis o meu filho amado”.
Dado Galvão é ciclista e documentarista, idealizador do Movimento @cicloolhar.
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